O Ouvido do Cachorro Precisa Estar Sempre Limpo? Entenda o Microbioma Auricular e a Saúde das Orelhas

O Ouvido do Cachorro Precisa Estar Sempre Limpo? Entenda o Microbioma Auricular e a Saúde das Orelhas

Dicas para Cães e Gatos

Informação para cuidar melhor de quem faz parte da família

Cães e gatos fazem parte da nossa vida de uma maneira especial. Por isso, cuidar deles vai muito além de oferecer alimentação, carinho e companhia. Entender seu comportamento, reconhecer sinais de atenção e conhecer melhor suas necessidades também faz parte de uma guarda responsável.

O Dicas para Cães e Gatos nasceu com esse propósito: reunir informações úteis, claras e responsáveis para tutores que desejam compreender melhor a saúde, o comportamento, a higiene, o bem-estar e a rotina de seus animais.

Nosso compromisso é buscar conhecimento em fontes confiáveis, incluindo universidades, hospitais veterinários, instituições de pesquisa, artigos científicos e literatura especializada. Sempre que possível, indicaremos as referências utilizadas ao final de cada conteúdo, para que o leitor possa conhecer a origem das informações e aprofundar sua pesquisa.

Aqui, não queremos substituir a avaliação de um médico-veterinário. Nosso objetivo é diferente: informar, orientar e despertar a atenção do tutor para aquilo que merece ser observado, ajudando-o a tomar decisões mais conscientes sobre os cuidados com seu cão ou gato.

Porque quanto mais entendemos nossos animais, melhor conseguimos cuidar deles.

Dicas para Cães e Gatos — conhecimento para uma vida mais saudável ao lado de quem você ama.

                                             

              O Ouvido do Cachorro Precisa Estar Sempre Limpo? Entenda o Microbioma Auricular e a Saúde das Orelhas

Introdução

Quando pensamos nos cuidados com os cães, é comum imaginar que quanto mais limpo estiver o animal, melhor. Banho, escovação, higiene das patas e limpeza das orelhas fazem parte da rotina de muitos tutores. Mas será que, quando falamos dos ouvidos, deixar tudo completamente limpo é sempre sinônimo de saúde?

A resposta é mais complexa do que parece.

O canal auditivo dos cães não é apenas um espaço que precisa ser higienizado. Ele possui características próprias e abriga um conjunto de microrganismos que faz parte de um ecossistema conhecido como microbioma auricular. Em condições normais, diferentes microrganismos podem viver nesse ambiente sem necessariamente causar doença.

                                                                                                                        

O problema pode surgir quando esse equilíbrio é alterado.

Mudanças no ambiente do ouvido, na produção de secreções, na barreira natural da pele ou em outros fatores podem favorecer a multiplicação de determinados microrganismos e contribuir para o desenvolvimento de problemas como a otite externa. Por isso, compreender o que acontece dentro do ouvido pode ser mais importante do que simplesmente tentar mantê-lo constantemente limpo.

Nos últimos anos, pesquisas veterinárias passaram a investigar esse pequeno ecossistema com técnicas cada vez mais sofisticadas, incluindo análises microbiológicas e métodos de sequenciamento genético. Esses estudos estão ajudando os pesquisadores a compreender melhor a diferença entre os microrganismos presentes em ouvidos saudáveis e aqueles associados a processos inflamatórios e infecciosos.

Neste artigo, vamos entender o que a ciência já descobriu sobre o microbioma das orelhas dos cães, qual é o papel do cerúmen, por que algumas alterações podem favorecer a otite e o que essas descobertas significam para os cuidados que oferecemos aos nossos animais.

Mais do que ensinar simplesmente a “limpar a orelha do cachorro”, a proposta é compreender o que significa manter um ouvido realmente saudável.

O que é o microbioma auricular?

Quando falamos em microrganismos, é comum pensar imediatamente em algo prejudicial. No entanto, a presença de bactérias no ouvido de um cão não significa, por si só, que exista uma infecção.

O canal auditivo possui uma comunidade de microrganismos que vive naquele ambiente. Essa comunidade é chamada de microbiota, enquanto o conjunto formado por esses microrganismos e suas características genéticas e funcionais é estudado dentro do conceito mais amplo de microbioma.

Em cães saudáveis, essa comunidade não é necessariamente igual entre todos os animais. Pesquisas utilizando técnicas modernas de análise genética demonstraram uma diversidade considerável de bactérias presentes no cerúmen e no canal auditivo, incluindo grupos pertencentes aos filos Proteobacteria, Actinobacteria, Firmicutes, Bacteroidetes e Fusobacteria.

Isso é importante porque mostra que a presença de determinadas bactérias não deve ser interpretada isoladamente como sinal de doença. O que interessa 

aos pesquisadores é também como essa comunidade está organizada e como ela se modifica quando o ouvido passa de um estado saudável para um estado de inflamação ou otite.

Estudos que compararam cães saudáveis com animais apresentando otite externa encontraram diferenças na diversidade e na composição dessas comunidades microbianas. Em um estudo utilizando sequenciamento do gene 16S rRNA, por exemplo, cães com otite apresentaram menor diversidade bacteriana e alterações importantes na composição da microbiota quando comparados aos animais saudáveis.

Uma tese de doutorado realizada na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) também investigou essa questão. O trabalho comparou o microbioma auricular de cães com otite externa com os resultados obtidos por cultura bacteriana e reforçou a importância de compreender a comunidade microbiana como um todo, e não apenas procurar uma única bactéria responsável pela doença.

Em outras palavras

O ouvido saudável não é um ambiente “estéril”. Ele possui uma comunidade microbiana própria.

O desafio está em compreender quando essa comunidade permanece equilibrada e quando alterações nesse ambiente estão associadas à doença.

                           

O ouvido saudável não é um ouvido estéril

Um dos primeiros conceitos que precisamos abandonar é a ideia de que o ouvido saudável de um cachorro deve estar completamente livre de microrganismos.

Na realidade, o canal auditivo possui uma microbiota própria, formada por diferentes tipos de microrganismos que vivem naquele ambiente. A presença dessas comunidades faz parte da biologia normal da pele e das superfícies do organismo e, isoladamente, não significa que o animal esteja doente.

                                                                                                                                    

O mesmo vale para o cerúmen, popularmente chamado de cera de ouvido. Embora muitas vezes seja visto apenas como sujeira, ele desempenha funções importantes na proteção do canal auditivo.

O cerúmen é formado por uma combinação de secreções das glândulas presentes no canal auditivo, células da pele e outros componentes. Ele ajuda a manter as características físicas e químicas do ambiente do ouvido e participa da proteção da pele que reveste o canal.

Além disso, o cerúmen não é simplesmente um material passivo. Ele contém substâncias que podem contribuir para a defesa natural da região. Por isso, a presença de uma pequena quantidade de secreção ou cerúmen não deve ser automaticamente interpretada como sinal de doença.

Então, quando a cera merece atenção?

A aparência e a quantidade da secreção precisam ser consideradas junto com outros sinais.

Um ouvido que apresenta odor forte, aumento significativo de secreção, vermelhidão, dor, coceira ou alterações persistentes merece atenção veterinária. Esses sinais podem estar associados a inflamação ou a outras alterações do canal auditivo e não devem ser tratados simplesmente como um problema de “falta de limpeza”.

Esse ponto é especialmente importante porque a otite externa não é causada por uma única condição. Diversos fatores podem contribuir para o desenvolvimento e a manutenção da inflamação, incluindo alterações no ambiente do canal auditivo e mudanças na população de microrganismos que normalmente vivem ali.

Por isso, a pergunta mais adequada não é simplesmente “quanto de cera existe no ouvido?”, mas também “o que está acontecendo com esse ouvido?”.

A ciência veterinária vem mostrando que compreender o ambiente auricular como um ecossistema pode ajudar a explicar por que alguns cães permanecem saudáveis enquanto outros desenvolvem inflamações recorrentes.

Um ouvido saudável não precisa ser estéril. Precisa estar em equilíbrio.

Quando o equilíbrio se perde: como a otite começa

Se o ouvido saudável possui uma comunidade de microrganismos própria, o que acontece quando esse ambiente sofre uma alteração?

É nesse ponto que começa uma das partes mais importantes para compreender a otite externa.

A otite externa é uma inflamação do canal auditivo externo. Ela não deve ser entendida simplesmente como uma infecção causada por uma única bactéria ou por um único tipo de fungo. Na prática, diferentes fatores podem participar do processo e criar condições para que a inflamação se estabeleça e se mantenha.

Entre esses fatores estão alterações na pele que reveste o canal auditivo, umidade, mudanças na quantidade e nas características das secreções, alergias, parasitas, corpos estranhos e outras doenças que podem afetar a saúde do ouvido.

Quando o ambiente do canal se modifica, a comunidade de microrganismos que normalmente vive ali também pode mudar.

Esse fenômeno é estudado pela ciência como uma alteração ou desequilíbrio da comunidade microbiana, frequentemente relacionado ao termo disbiose. Em vez de pensar que determinada bactéria simplesmente “apareceu”, é mais correto compreender que as condições do ambiente podem favorecer alguns microrganismos em detrimento de outros.

Do equilíbrio à inflamação

Podemos imaginar esse processo como uma sequência:

Alteração no ambiente do ouvido

Mudanças na barreira e nas condições da pele

Alteração da comunidade microbiana

Proliferação de determinados microrganismos

Inflamação e outros sinais de otite

Mas essa sequência não acontece obrigatoriamente da mesma maneira em todos os cães.

Um dos motivos é que a causa inicial da alteração pode ser diferente entre os animais. Em um cão, uma doença alérgica pode estar por trás do problema; em outro, pode existir um corpo estranho, parasitas, alterações anatômicas ou outras condições predisponentes.

Por isso, identificar apenas os microrganismos presentes no ouvido não é suficiente para explicar todo o problema.

O que os pesquisadores observam?

Estudos modernos passaram a analisar não apenas quais bactérias estão presentes, mas como toda a comunidade microbiana se comporta.

Pesquisas utilizando sequenciamento genético encontraram diferenças na composição e na diversidade da microbiota de cães saudáveis quando comparados a animais com otite externa. Essas diferenças ajudam os pesquisadores a compreender melhor a relação entre o ambiente do ouvido, a microbiota e a inflamação.

Isso também ajuda a explicar por que uma mesma espécie de microrganismo pode ser encontrada em um cão saudável e, em determinadas circunstâncias, estar associada a um processo de doença em outro.

Portanto, a presença de uma bactéria ou de uma levedura, isoladamente, não conta toda a história.

A questão central é o equilíbrio do ambiente auricular e os fatores que levaram esse equilíbrio a ser alterado.

É justamente por isso que as otites recorrentes podem ser tão difíceis de controlar: tratar apenas a manifestação microbiana sem investigar os fatores que favoreceram sua ocorrência pode não resolver a causa do problema.

Bactérias e leveduras: quando os microrganismos participam da doença

Ao ouvir falar em otite, muitos tutores imaginam imediatamente uma bactéria ou um fungo como o responsável pelo problema. Essa interpretação, porém, é mais simples do que a realidade observada pelos pesquisadores.

Alguns microrganismos encontrados no ouvido dos cães também podem fazer parte da microbiota de animais saudáveis. O que muda durante um processo de otite é o ambiente em que esses microrganismos vivem, a composição da comunidade microbiana e a resposta inflamatória do organismo.

Entre os microrganismos frequentemente estudados nas otites caninas estão bactérias dos gêneros Staphylococcus e Pseudomonas, além da levedura Malassezia.

Malassezia: uma levedura que merece atenção

A Malassezia é particularmente interessante porque pode ser encontrada na pele e nos ouvidos de cães sem necessariamente significar que exista uma doença.

Em determinadas condições, entretanto, alterações no ambiente da pele podem favorecer sua multiplicação. Quando isso ocorre juntamente com inflamação e outros fatores predisponentes, a levedura pode participar do processo de otite.

Isso significa que encontrar Malassezia em uma amostra não deve ser interpretado de maneira isolada. O médico-veterinário considera a presença do microrganismo em conjunto com os sinais clínicos e outros exames, como a citologia.

E as bactérias?

Bactérias como espécies do gênero Staphylococcus também podem estar presentes no ambiente auricular. Já algumas espécies de Pseudomonas estão particularmente associadas a determinados casos de otite externa, principalmente quando existe um processo inflamatório persistente.

Pesquisas microbiológicas e estudos de microbioma mostram, entretanto, que a realidade é muito mais complexa do que procurar uma única bactéria responsável pela doença.

Em um ouvido inflamado, diferentes microrganismos podem coexistir e interagir. Além disso, a própria inflamação modifica as condições do ambiente, criando um ciclo que pode favorecer a persistência do problema.

Por isso, “qual microrganismo está presente?” é apenas uma das perguntas que precisam ser respondidas.

Também é necessário perguntar:

Por que esse microrganismo conseguiu se multiplicar?

O que alterou o ambiente do ouvido?

Existe uma doença ou condição predisponente?

A inflamação está sendo controlada?

Essas perguntas são importantes principalmente nos casos recorrentes. Quando a causa de base não é investigada, o problema pode reaparecer mesmo depois de uma melhora inicial.

O papel da citologia

Na medicina veterinária, a citologia auricular é uma ferramenta importante para avaliar o conteúdo presente no ouvido. Por meio de uma amostra da secreção, examinada ao microscópio, o veterinário pode observar células inflamatórias e diferentes tipos de microrganismos.

Esse exame ajuda a complementar a avaliação clínica e pode contribuir para a escolha da abordagem terapêutica adequada.

É justamente essa combinação entre histórico, exame físico, avaliação do ouvido e exames complementares que permite compreender melhor o que está acontecendo.

A ciência, portanto, não trata simplesmente de eliminar todos os microrganismos do ouvido. O objetivo é identificar e tratar a doença e seus fatores associados, restaurando condições que favoreçam a saúde do canal auditivo.

Por que algumas otites parecem nunca desaparecer?

Quando uma otite melhora e depois volta, é comum o tutor pensar que o tratamento “não funcionou”. Em alguns casos, porém, o problema pode ser mais complexo.

A otite externa é frequentemente consequência de uma combinação de fatores. Uma alteração na pele, uma alergia, a anatomia do ouvido, umidade excessiva, parasitas ou um corpo estranho podem favorecer a inflamação. Quando essas condições permanecem, o ouvido continua encontrando dificuldades para recuperar seu equilíbrio.

Existe ainda outro aspecto importante: a própria inflamação modifica o ambiente do canal auditivo.

O aumento da secreção, alterações na pele, umidade e mudanças no microambiente podem favorecer determinados microrganismos. Assim, pode surgir um ciclo em que a inflamação favorece alterações microbianas e essas alterações, por sua vez, podem contribuir para a manutenção da inflamação.

O papel do biofilme

Em alguns casos crônicos, pesquisadores também investigam a presença de biofilmes.

De maneira simples, um biofilme é uma comunidade de microrganismos que permanece aderida a uma superfície e envolvida por uma matriz produzida pelos próprios microrganismos. Essa organização pode dificultar a ação das defesas do organismo e alterar a resposta aos tratamentos.

Isso não significa que toda otite tenha biofilme. A presença e a importância desse fenômeno dependem do caso e das características da infecção.

Pesquisas realizadas em cães com otite crônica encontraram evidências de biofilme em parte das amostras analisadas, reforçando a importância de compreender a doença para além da simples identificação de uma bactéria ou levedura.

Por isso, uma otite recorrente merece investigação

Quando a inflamação retorna repetidamente, pode ser necessário investigar por que aquele ouvido continua sendo um ambiente favorável à doença.

Dependendo do caso, o médico-veterinário pode avaliar a pele, histórico de alergias, anatomia do canal auditivo, presença de parasitas ou corpos estranhos e características da secreção. Exames como citologia e, em determinadas situações, cultura microbiológica e testes de sensibilidade podem ajudar na investigação.

Essa avaliação é especialmente importante porque repetir medicamentos por conta própria pode mascarar temporariamente os sinais sem solucionar o fator que está mantendo a doença.

O ponto mais importante

Uma otite que volta várias vezes não deve ser encarada simplesmente como “uma infecção que precisa de mais remédio”.

Ela pode ser o resultado de um ciclo envolvendo causa predisponente, alteração do ambiente auricular, inflamação e mudanças na comunidade microbiana.

Por isso, quanto mais recorrente é o problema, mais importante se torna investigar sua origem.

Cuidar da saúde do ouvido não significa apenas combater aquilo que cresceu ali. Significa entender por que aquele ambiente permitiu que a doença se instalasse e continuasse.

Então, o ouvido do cachorro deve ser limpo ou não?

Depois de entender o microbioma auricular, uma dúvida surge naturalmente: se o ouvido saudável não precisa ser estéril, isso significa que não devemos limpá-lo?

Também não é bem assim.

A limpeza das orelhas pode fazer parte dos cuidados de muitos cães, mas a frequência e a necessidade da limpeza não são iguais para todos os animais.

Alguns cães produzem mais cerúmen. Outros possuem características anatômicas que dificultam a ventilação do canal auditivo. Animais com determinadas doenças de pele ou histórico de otites também podem precisar de cuidados específicos.

Por outro lado, limpar excessivamente um ouvido que está saudável, especialmente utilizando produtos inadequados ou técnicas agressivas, não significa necessariamente oferecer mais proteção.

Limpeza não é sinônimo de prevenção de todas as otites

Uma das ideias mais importantes deste artigo é justamente essa: a otite não acontece simplesmente porque o ouvido ficou sujo.

A doença pode estar relacionada a alergias, parasitas, alterações na pele, umidade, características anatômicas, corpos estranhos e diversos outros fatores. Em determinados casos, alterações na comunidade microbiana também participam do processo.

Por isso, aumentar indiscriminadamente a frequência das limpezas não necessariamente elimina a causa de uma otite recorrente.

O cuidado deve ser individualizado.

E quando existe secreção?

A presença de secreção, odor diferente, vermelhidão, coceira, dor ou aumento da sensibilidade merece atenção.

Esses sinais não permitem determinar, sozinhos, se existe uma infecção bacteriana, uma proliferação de leveduras, uma alergia ou outro problema. É justamente por isso que o exame veterinário é importante.

Em alguns casos, o profissional pode utilizar a otoscopia para observar o canal auditivo e o tímpano. A citologia, por sua vez, permite observar ao microscópio células inflamatórias e microrganismos presentes na secreção.

Essas informações ajudam a diferenciar situações que, para o tutor, podem parecer muito semelhantes.

O que o tutor pode fazer?

O tutor pode desempenhar um papel fundamental observando a rotina do animal.

É importante perceber se o cão:

  • coça frequentemente as orelhas;

  • balança a cabeça repetidamente;

  • demonstra dor ao tocar próximo às orelhas;

  • apresenta odor diferente ou mais intenso;

  • possui aumento de secreção;

  • apresenta vermelhidão;

  • tem episódios de otite que retornam com frequência.

Quanto mais cedo essas alterações forem percebidas, mais cedo o problema poderá ser investigado.

E existe uma regra simples que vale guardar:

não é necessário esperar o ouvido ficar muito alterado para procurar orientação veterinária.

O objetivo não é manter o ouvido “impecavelmente limpo”

Um ouvido saudável não precisa apresentar aparência completamente seca, sem qualquer traço de cerúmen.

O objetivo dos cuidados é manter o canal auditivo em boas condições, respeitando suas características naturais e identificando precocemente qualquer alteração.

Em outras palavras, higiene faz parte do cuidado, mas não substitui a avaliação da saúde do ouvido.

E essa diferença é fundamental para compreender por que alguns cães permanecem saudáveis mesmo sem limpezas frequentes, enquanto outros desenvolvem otites repetidamente e precisam de uma investigação mais aprofundada.

O que a ciência nos ensina sobre a higiene das orelhas?

Depois de conhecer o microbioma auricular, a inflamação e os fatores associados às otites, podemos chegar a uma conclusão importante: cuidar das orelhas de um cão não significa simplesmente limpá-las o máximo possível.

O ouvido é um ambiente biológico. Existe uma comunidade de microrganismos, existe cerúmen, existe uma barreira de pele e existe uma resposta imunológica. Todos esses elementos interagem.

Por isso, a higiene deve ser entendida como parte de um conjunto maior de cuidados.


Cada cão pode precisar de uma rotina diferente

Não existe uma frequência universal de limpeza que seja ideal para todos os cães.

Um animal saudável, sem histórico de problemas auriculares, pode ter necessidades muito diferentes de outro que apresenta alergias, produção excessiva de secreção ou episódios recorrentes de otite.

Essa diferença é importante porque uma rotina adequada para um cão pode não ser adequada para outro.

O acompanhamento veterinário permite determinar quando a limpeza é necessária, qual produto é apropriado e com que frequência o cuidado deve ser realizado.

E os produtos de limpeza?

Produtos destinados à higiene auricular podem ter diferentes formulações e finalidades. Portanto, não é correto considerar que qualquer substância destinada à limpeza seja adequada para qualquer situação.

Em cães que já apresentam inflamação, dor, secreção ou suspeita de lesão, a escolha do produto e a maneira de utilizá-lo devem ser orientadas por um médico-veterinário.

Isso é ainda mais importante porque o estado do tímpano precisa ser considerado em determinadas situações.

Além disso, pesquisas recentes continuam investigando como diferentes produtos de limpeza podem modificar o ambiente e a comunidade microbiana do ouvido.

Isso reforça uma ideia simples: limpar não é uma ação biologicamente neutra. O que é utilizado e a maneira como é utilizado podem fazer diferença.

O melhor cuidado é o cuidado individualizado

Em vez de perguntar apenas:

“De quanto em quanto tempo devo limpar o ouvido do meu cachorro?”

uma pergunta mais útil pode ser:

“Como estão as orelhas do meu cachorro e existe alguma característica que exija uma rotina específica?”

Essa mudança de perspectiva ajuda o tutor a deixar de enxergar o ouvido apenas como uma parte do corpo que precisa ser higienizada e passar a observá-lo como um sistema que precisa permanecer saudável.

E talvez essa seja a principal lição de tudo o que a pesquisa sobre o microbioma auricular vem mostrando:

saúde não é ausência absoluta de microrganismos. Saúde é equilíbrio.

Quando esse equilíbrio é perdido, identificar a causa e tratar corretamente o problema se torna mais importante do que simplesmente tentar deixar o ouvido cada vez mais limpo.


Conclusão

O ouvido saudável não precisa ser estéril

A pergunta que deu origem a este artigo — “O ouvido do cachorro precisa estar sempre limpo?” — merece uma resposta que vai além de um simples sim ou não.

O ouvido saudável não precisa ser completamente livre de microrganismos ou de qualquer quantidade de cerúmen. Ele possui uma comunidade microbiana própria e mecanismos naturais de proteção.

O que importa é o equilíbrio.

Quando esse equilíbrio é alterado, diferentes fatores podem contribuir para o desenvolvimento da otite: alterações na pele, alergias, umidade, anatomia do canal, parasitas, corpos estranhos e outras condições. As mudanças no ambiente auricular também podem favorecer alterações na comunidade microbiana.

Por isso, uma otite recorrente não deve ser vista apenas como um problema de “sujeira” ou como uma simples infecção que precisa ser combatida repetidamente.

É necessário compreender por que aquele ouvido está adoecendo.

A ciência veterinária vem utilizando ferramentas cada vez mais sofisticadas para estudar o microbioma auricular e compreender a relação entre microrganismos, ambiente, inflamação e doença. Esses estudos mostram que o ouvido é um pequeno ecossistema muito mais complexo do que pode parecer.

O que o tutor deve levar deste artigo?

Observe as orelhas do seu cão.

Mudanças persistentes de odor, secreção, vermelhidão, coceira, dor ou comportamento devem ser levadas a sério. E quando as otites retornam repetidamente, investigar a causa pode ser muito mais importante do que simplesmente repetir a mesma rotina.

A higiene pode fazer parte dos cuidados, mas higiene não substitui diagnóstico.

E talvez a principal lição seja esta:

Cuidar não significa eliminar tudo. Significa compreender o que é normal, perceber quando algo mudou e agir da maneira correta.

Quanto mais conhecemos a biologia dos nossos animais, mais conscientes se tornam os cuidados que oferecemos a eles.

Dicas para Cães e Gatos — conhecimento para uma vida mais saudável ao lado de quem você ama.

Fontes e referências

Este artigo foi elaborado a partir de literatura científica e trabalhos acadêmicos relacionados à microbiota auricular, otite externa, microbiologia e saúde das orelhas de cães.

As pesquisas utilizadas incluem estudos realizados em universidades, trabalhos acadêmicos de pós-graduação e publicações científicas que investigaram a composição microbiana do ouvido, as alterações associadas à otite e os fatores envolvidos na persistência da doença.

As referências abaixo são apresentadas para que o leitor possa consultar as fontes originais e aprofundar seu conhecimento.

Referências científicas

Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro — UFRRJ.
Tese de doutorado sobre o microbioma auricular de cães com otite externa, investigando a comunidade microbiana por métodos microbiológicos e técnicas de sequenciamento. Repositório Institucional da UFRRJ, 2024.

Universidade Federal de Minas Gerais — UFMG.
Dissertação de mestrado sobre os aspectos clínicos, citológicos e microbiológicos da otite externa crônica em cães, incluindo investigação de microrganismos e biofilme. Repositório Institucional da UFMG, 2024.

Frontiers in Veterinary Science.
Revisão científica sobre o microbioma e a otite externa associada à dermatite alérgica em cães, abordando a relação entre microbiota, cerúmen, inflamação e doença. 2024.

PubMed / National Library of Medicine.
Estudos científicos utilizando sequenciamento do gene 16S rRNA para investigar a diversidade e a composição da microbiota auricular de cães saudáveis e cães com otite.

PubMed / National Library of Medicine.
Estudo publicado em 2025 investigando a influência de produtos de limpeza auricular sobre o microbioma de cães com otite associada à presença de Malassezia.

Observação importante

A literatura científica sobre o microbioma auricular canino ainda está em evolução. Por isso, algumas relações entre microbiota, inflamação, biofilme e desenvolvimento da otite continuam sendo estudadas.

As informações deste artigo têm finalidade educativa e não substituem a avaliação de um médico-veterinário. Em casos de dor, secreção, odor intenso, coceira persistente, vermelhidão ou otites recorrentes, o animal deve ser avaliado por um profissional.


Fontes e referências

Este artigo foi elaborado com base em trabalhos acadêmicos, estudos científicos e literatura veterinária relacionados ao microbioma auricular, à otite externa canina, à microbiologia do ouvido, ao biofilme e à higiene auricular.

As referências abaixo permitem ao leitor consultar diretamente as pesquisas utilizadas.

1. UFRRJ — Microbioma auricular e cultura bacteriana

MAKITA, Mário Tatsuo. Diagnóstico da otite externa em cães: comparação entre o microbioma auricular e cultura bacteriana. 2024. 94 f. Tese (Doutorado em Ciências Veterinárias) — Instituto de Veterinária, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, 2024.

O trabalho analisou amostras de cães com otite externa e comparou resultados de cultura bacteriana com análise do microbioma por sequenciamento. Entre os resultados, foram observadas diferenças importantes entre os microrganismos identificados pela cultura e aqueles encontrados como mais abundantes no microbioma.

Consultar a tese no Repositório da UFRRJ

2. UFMG — Otite externa crônica, citologia e biofilme

VIGLIONI, Luiza Diniz. Associação dos aspectos clínicos, citológicos e microbiológicos de otites externas crônicas em cães. 2024. Dissertação (Mestrado) — Universidade Federal de Minas Gerais.

O estudo avaliou aspectos clínicos, citológicos e microbiológicos de cães com otite externa crônica, incluindo a presença de bactérias, leveduras e biofilme. O trabalho também observou menor diversidade microbiana nas orelhas inflamadas e predominância de bactérias do gênero Staphylococcus.

Consultar a dissertação no Repositório da UFMG

3. Microbiota do cerúmen em cães saudáveis e com otite

“Cerumen microbial community shifts between healthy and otitis affected dogs.” Estudo publicado na literatura científica e indexado no PubMed.

A pesquisa comparou a comunidade microbiana presente no cerúmen de cães saudáveis e de cães com otite externa, utilizando sequenciamento do gene 16S rRNA. Os pesquisadores observaram diferenças na comunidade bacteriana associadas à condição de saúde do ouvido.

Consultar o estudo no PubMed

4. Sequenciamento do microbioma em cães com otite externa

“Identification of bacteria associated with canine otitis externa based on 16S rDNA high-throughput sequencing.”

O estudo utilizou sequenciamento de alto rendimento para investigar as populações bacterianas presentes no canal auditivo de cães saudáveis e cães com otite externa. Os cães saudáveis apresentaram maior riqueza e diversidade bacteriana, enquanto diferentes grupos bacterianos foram observados nos casos de otite.

Consultar o estudo no PubMed

5. Higiene auricular e microbioma em cães com proliferação de Malassezia

BRIAND, Amaury et al. Effect of a ceruminolytic ear cleaner on clinical, microbiological and ear canal microbiome evolution in canine erythemato-ceruminous otitis externa associated with proliferation of Malassezia yeasts. Veterinary Dermatology, 2025, 36(5): 668–678. DOI: 10.1111/vde.13352.

O estudo avaliou cães com otite externa eritemato-ceruminosa associada à proliferação de Malassezia e investigou alterações clínicas e no microbioma após o uso de um produto de limpeza auricular específico. Os resultados demonstraram mudanças na comunidade fúngica e redução dos sinais clínicos durante o período estudado.

Consultar o estudo no PubMed

6. Limpeza auricular durante o tratamento da otite

“Effect of ear cleaning on treatment outcome for canine otitis externa.” Veterinary Dermatology, 2024. DOI: 10.1111/vde.13292.

O estudo comparou diferentes estratégias de limpeza em cães com otite externa durante o tratamento. Os resultados reforçam que a importância da limpeza pode variar conforme as características do caso e dos microrganismos presentes.

Consultar o estudo no PubMed

7. Biofilme e microrganismos associados à otite

SAVALIYA, Bhumika F. et al. Comparison of the in vitro antibiofilm activities of otic cleansers against canine otitis externa pathogens. Veterinary Dermatology, 2025, 36(2): 148–158. DOI: 10.1111/vde.13331.

O estudo investigou a formação de biofilme por diferentes microrganismos associados à otite externa canina e avaliou, em laboratório, a atividade antibiofilme de diferentes soluções de limpeza.

Consultar o estudo no PubMed

8. Biofilme e bactérias associadas a infecções auriculares

STEPHEN, Abish S. et al. Antimicrobial activity of ear cleanser products against biofilm and planktonic phases of Staphylococcus spp. and Pseudomonas spp. isolated from canine skin and ear infections. BMC Veterinary Research, 2025, 21:137. DOI: 10.1186/s12917-025-04526-0.

O trabalho investigou, em laboratório, a atividade de diferentes produtos de limpeza contra bactérias em formas livres e associadas a biofilmes, incluindo espécies de Staphylococcus e Pseudomonas. Os resultados mostraram que a atividade variou conforme a formulação e o microrganismo estudado.

Consultar o estudo no PubMed

Nota editorial

As pesquisas sobre o microbioma auricular canino continuam evoluindo. Portanto, resultados encontrados em estudos específicos não devem ser interpretados como regras absolutas para todos os cães.

Este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento realizado por médico-veterinário.

Em casos de dor, coceira persistente, secreção, odor intenso, vermelhidão ou episódios recorrentes de otite, a avaliação profissional é a forma adequada de investigar a causa do problema.


Cuidados que podem fazer parte da rotina

Cuidar da saúde das orelhas de um cão não significa apenas limpar com frequência. Como vimos ao longo deste artigo, o ouvido possui um equilíbrio próprio, e alterações como coceira, odor diferente, secreção, vermelhidão, dor ou episódios recorrentes de otite merecem atenção.

Quando esses sinais estão presentes, a avaliação de um médico-veterinário deve ser sempre a prioridade. Somente uma avaliação adequada pode ajudar a identificar a causa do problema e indicar o cuidado mais apropriado para cada animal.

Em situações nas quais não há sinais de doença, alguns produtos desenvolvidos especificamente para a higiene e os cuidados preventivos das orelhas podem fazer parte da rotina, desde que sejam adequados ao animal e utilizados de acordo com as orientações do fabricante ou do profissional responsável pelo acompanhamento do pet.

A higiene correta pode ajudar a manter as orelhas em boas condições, mas não substitui o diagnóstico e o tratamento veterinário quando existe uma alteração de saúde.

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A escolha de um produto deve levar em consideração as necessidades de cada animal. Por isso, em caso de dúvida, sensibilidade, dor, secreção ou suspeita de otite, converse primeiro com um médico-veterinário.

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Informação antes de tudo

Nosso objetivo não é substituir a orientação profissional nem incentivar o uso indiscriminado de produtos. É ajudar o tutor a entender melhor seu animal, reconhecer mudanças e saber quando procurar ajuda.

Porque cuidar bem também significa saber quando é hora de procurar um veterinário.

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